O mundo sempre precisou de heróis
Desde o cavalo de madeira que encerrou uma guerra de dez anos diante das muralhas de Troia, os nomes de Odisseu e Aquiles atravessaram os séculos ao lado de tantas outras figuras que alimentaram o imaginário humano. Depois vieram Arthur e sua Távola Redonda, a heroica e trágica jornada de Joana d’Arc, Robin Hood e sua justiça fora da lei, D’Artagnan com sua espada e honra.
Na fantasia, Frodo saiu do Condado com um anel ao pescoço, Harry Potter descobriu que sobreviver também é um chamado, e Katniss ergueu o punho contra o Presidente Snow.
Em MAHY-RA – Uma Lenda na Amazônia, o autor paranaense Antônio Ribas faz exatamente isso: cria uma personagem que encarna força, ancestralidade e esperança em pleno coração da floresta brasileira, onde não há tronos nem castelos, mas há algo ainda mais valioso sendo ameaçado — a vida e o equilíbrio.
Uma heroína brasileira
No centro da narrativa está Mahy-ra, uma jovem criada em São Paulo, filha de um biólogo americano e naturalizado brasileiro que nutria grande admiração pelos povos da Amazônia. Após a destruição da “árvore-mãe” — uma entidade sagrada que fornecia cura e equilíbrio espiritual a uma aldeia ancestral chamada Teçayubá — Mahy-ra é chamada a cumprir um destino há muito aguardado.
A aldeia, habitada por pessoas de olhos amarelos que enxergam na escuridão como felinos, vive o colapso de sua existência após perder sua principal fonte de cura para suas doenças, mantendo-os saudáveis e fortes. Cabe a Mahy-ra, figura quase mítica, o papel de restaurar a ordem e reconectar os fragmentos do que foi arrancado. Misturando espiritualidade, fantasia, memória indígena e mitologia original, o livro conduz o leitor por uma jornada de autodescoberta, pertencimento e resistência em meio à vastidão viva da floresta amazônica.
Heroísmo como resposta simbólica
Segundo Ribas, a ideia de escrever Mahy-ra surgiu a partir de uma pergunta que muitos leitores brasileiros já se fizeram: por que tantos dos heróis que conhecemos vêm da Europa e das metrópoles do Velho Mundo? “Uma coisa que sempre me incomodou foi perceber que todos esses grandes heróis — como o Rei Arthur, os Três Mosqueteiros ou o Conde de Monte Cristo — vêm do exterior, especialmente da Europa. E aqui, no Brasil, parecia que não havia nada que fosse realmente nosso. Eu olhava para a floresta amazônica e pensava: embaixo disso tudo existe séculos de vida, de histórias, lendas e memórias esquecidas. Existe muita coisa para ser contada aqui, mas alguém precisa descobrir e dar voz a isso tudo”, conta.
A Floresta Amazônica
Na história de MAHY-RA, a Amazônia não é apenas cenário — é um personagem vivo. Antônio Ribas trata a floresta como um ser quase sensitivo, que guarda memórias e reage. O autor se aproximou desse universo por meio de muita pesquisa: leu relatos históricos, ouviu especialistas e contou com a análise e confirmação de histórias antigas da indígena Ysani Kalapalo, que compartilhou histórias e visões de seu povo. A floresta, com seus animais, mistérios e espiritualidade, move a narrativa tanto quanto a protagonista. Ela tem alma, tem voz e é parte essencial de tudo o que acontece.
Onde mito e história se encontram
Ao idealizar a aldeia de Teçayubá, Ribas não apenas criou uma cosmologia, mas teve o cuidado de fazê-la parecer real. “O nome significa ‘olhos amarelos. Eles enxergam no escuro como felinos, mas durante o dia o sol os incomoda. Isso saiu da minha cabeça, mas tem tudo a ver com o que a floresta representa: um lugar de mistério, força e sobrevivência.”
A aldeia é fictícia, mas nasce de uma mistura de pesquisa, escuta e imaginação. Ribas não quis repetir lendas prontas, mas preferiu criar uma mitologia nova, brasileira, com raízes na floresta. “Eu não queria só contar histórias indígenas. Quis imaginar junto com elas. Teçayubá pode não existir no mapa, mas podia existir. E isso, pra mim, é o que faz uma boa lenda: algo inventado, mas que parece verdadeiro.”
MAHY-RA – Uma Lenda na Amazônia é uma obra que transborda orgulho, identidade e cultura dos povos que constituem o nosso Brasil. Ao criar uma heroína ligada às raízes da floresta e às dores de um povo ancestral, Antônio Ribas não apenas conta uma história, ele nos mostra quanto o brasileiro é capaz de criar os seus próprios heróis. E em tempos de necessidade, Mahy-ra irá escutar mais uma vez o nosso chamado.
Foto: Patricia Monteiro Ribas
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