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Diversão & Arte Mulheres que servem

No Maio Furta-cor, conheça o trabalho das doulas que atuam no Humai-UEPG

No Hospital Universitário Materno-Infantil da Universidade Estadual de Ponta Grossa (Humai-UEPG), são cerca de 30 doulas voluntárias cadastradas para atuar em partos

22/05/2024 17h24 Atualizada há 4 semanas
Por: Redação Fonte: UEPG

De origem grega, a palavra “doula” remete a “mulher que serve”. É essa a essência da atuação das doulas, profissionais que dão suporte emocional, apoio psicológico e conforto a gestantes em todo o período da gravidez, parto e pós-parto. No Hospital Universitário Materno-Infantil da Universidade Estadual de Ponta Grossa (Humai-UEPG), são cerca de 30 doulas voluntárias cadastradas para atuar em partos.

Foto: Reprodução/UEPG
Foto: Reprodução/UEPG

“A doula é parceira antiga nossa, desde a abertura da Maternidade”, lembra a assistente social Lucimara Nabozny. Segundo a profissional, que acompanhou de perto a trajetória dos atendimentos obstétricos nos Hospitais da UEPG, o Humai tem uma vocação para a humanização do parto – na qual a doula tem papel fundamental, com acolhimento, acompanhamento e suporte emocional e contribuindo com conhecimentos na melhoria contínua das equipes.

No Humai, o voluntariado de doulas acontece desde 2021. Para participar, é simples: a doula precisa fazer um cadastro prévio com o Serviço Social, apresentando cópia e original dos documentos pessoais (RG e CPF), do certificado da formação de doula, comprovante de endereço e carteira de vacinação completa (incluindo a vacina contra Covid-19). Como o hospital atende exclusivamente pelo SUS, não pode ser realizada nenhuma cobrança em decorrência do atendimento no Humai. O contato do Serviço Social para mais informações é o do WhatsApp .

Foto: Reprodução/UEPG
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Acolhimento

Luz baixa, uma música leve. “Meu corpo e meu bebê sabem exatamente o que fazer”. Fotos de momentos felizes e afirmações positivas nas paredes. “Seja bem-vinda, Isis”. Uma massagem ajuda a aliviar a dor da contração e a presença calma da doula dá suporte ao trabalho do corpo feminino para trazer ao mundo uma vida.

A doula Caroline Sauner estava lá na noite em que a pequena Isis, filha da Kim e do Matheus, nasceu. “A doula não é técnica, ou seja, ela não ‘faz parto'”, explica. Segundo ela, o papel da doula não é de realizar exames ou aferir sinais vitais, mas sim de ajudar a aliviar a tensão e a ansiedade do momento. “Durante o trabalho de parto, ajuda a mulher a lidar com a dor, com massagens, acupressão, posicionamentos, aromaterapia e por aí vai”.

O chuveiro quente ajudava a aliviar as dores das contrações e agilizar a progressão do trabalho de parto. Pai e doula alternam para fazer massagens na lombar da gestante – técnica que foi ensinada pela doula durante os encontros de educação perinatal. “A doula é uma profissional de assistência à informação e emocional. Durante a gestação, a pessoa gestante pode entender o processo, a fisiologia, desde a gestação em si até o trabalho de parto e suas fases. Durante toda a gestação ela e, claro, o acompanhante, que é o responsável legal pela mulher, vão se preparar para possíveis desfechos, como uma cesárea intraparto, caso haja indicação”, orienta Caroline. “Também saberá o básico para iniciar os cuidados com o bebê e a amamentação, que pode ser desafiadora sem a devida orientação”.

O chamado para atuar como doula veio após duas experiências negativas durante as gestações de Caroline. “Em 2019 tive minha primeira gestação e não sabia sobre nada do universo gravídico-puerperal”, lembra. Infelizmente, o primeiro bebê foi perdido com nove semanas de gravidez. Na segunda gestação, Caroline passou por situações de violência obstétrica antes e durante o parto. “Então, grávida do meu segundo filho, decidi ser doula e proporcionar que mais mulheres tenham boas experiências, e que elas pudessem tomar suas decisões com consciência do que poderia acontecer”, relata. “Meu desejo é que toda mulher possa ter uma doula, que possa orientar e prestar esse suporte durante o parto”.

Foto: Reprodução/UEPG
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Foto: Reprodução/UEPG
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Foto: Reprodução/UEPG
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Doulagem

Parir é uma atividade coletiva, desde os primórdios da humanidade. Primatas têm o costume de se isolar em árvores ou touceiras para dar à luz, mas os humanos são a única espécie desse grupo que busca regularmente ajuda para o trabalho de parto. Pesquisadoras como Karen Rosenberg e Wenda Trevathan, das universidades de Delaware e New Mexico State, nos Estados Unidos, apontam que as alterações anatômicas que possibilitaram que o ser humano ande ereto, sobre duas pernas, e a proporção maior do tamanho das cabeças com relação aos corpos fazem com que o parto seja mais complexo do que para outras espécies da ordem primata. “Na verdade, o hábito de procurar assistência no parto talvez já existisse quando o mais antigo membro do gênero Homo apareceu, e possivelmente data de cinco milhões de anos atrás, quando nossos ancestrais começaram a andar eretos regularmente”, apontam, em estudo publicado na revista Scientific American.

De um evento comunitário, com a presença de mulheres da família, mais experientes com o processo de trazer ao mundo um bebê, o parto foi se tornando cada vez mais um evento íntimo, em ambiente hospitalar e cercado por profissionais que atendem a preocupações técnicas referentes à mãe e ao bebê. Mas o cuidado com o bem-estar emocional da gestante fica, muitas vezes, em segundo plano. É aí que entra a atuação da doula.

Foto: Reprodução/UEPG
Foto: Reprodução/UEPG

A atuação da doula na gestação, parto e pós-parto é recomendada pelo Ministério da Saúde e pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Além de aumentar o bem-estar da mãe e ajudar na depressão pós-parto, a presença da doula diminui os índices de cesáreas e a duração do trabalho de parto, além de reduzir o uso de intervenções no parto, como analgesia peridural, ocitocina e fórceps. A doula Karine Alves comenta que diversas referências comprovam esse benefício. “Existe um trabalho científico muito bom, com revisão da literatura sobre 26 estudos, publicados inclusive na Cochrane, avaliando 15.858 mulheres em trabalho de parto, em 17 países do mundo, incluindo o Brasil, que evidencia que ter alguém oferecendo suporte durante o trabalho de parto reduz o tempo de duração e a dor, bem como o risco de problemas de saúde do bebê no nascimento e de atraso no início da amamentação, além de proteger contra depressão pós-parto”, relata. “Doulas aumentam a satisfação com o parto e reduzem intervenções e cesáreas desnecessárias, além de reduzir os custos para o sistema de saúde, dessa forma contribuindo para um parto humanizado, reduzindo as chances de violência obstétrica e com segurança”.

“Elas são muito importantes, porque transmitem segurança para a paciente”, destaca a coordenadora da Maternidade do Humai, Regiane Hoeldtke. O mundo ideal seria aquele em que todas as gestantes tivessem o acompanhamento de doulas, segundo ela. “Diminuiria muito o índice de cesáreas com a presença da doula, que acaba transmitindo muito mais confiança para essa mãe durante o parto”.

Tramita na Câmara dos Deputados, desde 2017, um projeto de lei que regulamenta a profissão de Doula, que está inclusa no Cadastro Brasileiro de Ocupações, do Ministério do Trabalho. Nesse projeto, são caracterizadas as áreas de atuação e atividades das doulas, que não incluem a participação nos procedimentos médicos ou de enfermagem. As doulas não realizam procedimentos de saúde, como ausculta fetal, aferição de pressão e exame de toque do colo uterino. A presença da profissional não substitui o acompanhante da paciente: nas maternidades, é permitida a entrada de um acompanhante, mais a doula.

Foto: Reprodução/UEPG
Foto: Reprodução/UEPG

Karine é doula há 6 anos e, como muitas, resolveu seguir a profissão após conhecer mais sobre esse momento da vida da mulher em sua própria experiência de gravidez. “Durante a gestação do meu filho, 2017/2018, busquei todo tipo de informação acerca do ciclo gravídico puerperal, e só então fiquei sabendo da função da doula”, lembra. “Fiz a minha formação certificada enquanto gestava e mais um curso de especialização, ainda antes do meu bebê nascer. Ali eu compreendi a dimensão e a grandeza desse trabalho, e então, após alguns meses do nascimento do meu filho, comecei a atuar primeiramente na Educação Perinatal, porque era um período que eu amamentava, então era o que eu conseguia conciliar, e só depois passei a atender dentro das maternidades, na assistência aos partos”.

Há outras formas e momentos de atuação das doulas, como explica Karine: “Existem doulas que atendem somente a fase de gestação, ou as fases do trabalho de parto, doulas de pós-parto e puerpério e até doulas de adoção, auxiliando na adaptação da família com a criança a ser adotada. O que vemos ser mais comum são as doulas que acompanham desde a gestação, passando pelo parto e o pós-parto imediato, ficando até duas horas após o nascimento do bebê, e posteriormente realizando uma visita domiciliar pós-parto, após a fase de resguardo, encerrando aí o atendimento”. A Educação Perinatal, que compreende as informações sobre a gestação, parto e maternidade, é uma das atuações mais importantes desse ofício, segundo a doula. “Sabemos o quanto as redes estão poluídas com todo tipo de informação, que não se sabe ao certo o que pode ser válido ou não. À doula também cabe o trabalho, muitas vezes, de filtrar essas informações, levando às famílias somente o que realmente importa e merece atenção, não deixando passar as informações que ajudarão a tomar as decisões mais acertadas, acalmando a mãe em cada momento e trazendo mais segurança durante a assistência ao parto”.

Foto: Reprodução/UEPG
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Foto: Reprodução/UEPG
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Conversa e acolhimento

Um espaço para sanar dúvidas, trocar ideias e expectativas e conhecer direitos: esse é o propósito das Rodas de Conversa com Gestantes organizadas pelo Serviço Social no Humai. Todos os meses, as assistentes sociais se reunem com gestantes para apresentar os direitos na hora do parto, referenciamento, consultas e documentação. A atividade é gratuita e aberta para quem quiser participar – só é preciso confirmar participação através do WhatsApp (42) 99100 6898. Os próximos encontros serão nos dias 27 de maio (14h) e 07 de junho (16h).

Desde o início do projeto, a presença constante de doulas contribui com as discussões. Foi a partir do convite da doula Mari Toledo que Luana Aparecida de Mattos, que é acadêmica de Serviço Social na UEPG, chegou à roda de conversa, no início de maio. Ela conta que optou pelo acompanhamento da profissional durante a gestação para saber mais sobre o processo de se tornar mãe. “Maternidade não precisa ser esse bicho de sete cabeças, né? Eu decidi procurar conhecimento”.

Foto: Reprodução/UEPG
Foto: Reprodução/UEPG

Na preparação para a vinda da pequena Isis, que chega nos próximos meses, elas já realizam encontros de Educação Perinatal. “É tudo muito novo e muita informação, então quanto mais você tiver conhecimento, fica mais fácil”, diz Luana. “Ela passa todas as dicas, exercícios, dá suporte físico e preparo emocional, ela dá apoio, conhecimento e a gente acaba criando um vínculo. Acaba quase virando parte da família, né?”.

Saúde Mental Materna

Furta-cor: uma tonalidade que se altera de acordo com a luz que recebe. Na campanha Maio Furta-cor, movimento internacional que tem como objetivo a conscientização e sensibilização sobre a saúde mental materna, a mensagem é de que no espectro da maternidade cabem todas as cores. Além de doula, Juliane Carrico e a representante oficial do movimento em Ponta Grossa. De panfleto em panfleto e de ação em ação, a meta é alcançar mães que precisam de ajuda e acolhimento.

Foto: Reprodução/UEPG
Foto: Reprodução/UEPG

Doula desde 2021, Juliane já é militante da humanização do parto desde 2018, quando conheceu a temática da violência obstétrica. “O que me levou à doulagem foi a minha experiência de gestação e parto, na qual contei com uma doula, e tive uma experiência de parto 90% positiva e senti a necessidade de estar com outras pessoas gestantes tornando esse momento, que pode ser muito desafiador, muito mais leve”, conta. “O fato de eu também ter sofrido violência obstétrica me fez ter ainda mais vontade de lutar pelos direitos das gestantes”. Dentre as atividades da campanha em Ponta Grossa, cuja programação está disponível aqui , está prevista uma roda de conversa com as gestantes no Humai.

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