Nas últimas décadas, as tendências de inovação na gestão escolar ficaram focadas na produção de conteúdo para prender a atenção de uma geração que já nasceu em meio à revolução digital provocada pela internet. Agora é hora de voltar os olhos para o administrativo e, a partir dele, projetar o caminho para a eficiência operacional que traga os resultados esperados. Quem alerta é o economista Rafael Moreira, que também é gestor comercial com atuação na área de tecnologia e é sócio e diretor de operações da F10 Software, edtech especializada no desenvolvimento de soluções para o setor educacional. Moreira discorre sobre as tendências para 2024 e dá dicas para romper com vícios e tradições que muitas vezes impedem a instituição de ampliar os negócios. “Não há mais espaço para amadorismo”, resume. Veja a seguir as principais dicas do especialista.
A busca pela qualidade do serviço e do produto entregues deve estar no radar dos gestores?
Sim. Minha experiência me mostra que não há espaço para desonestos. Ou seja, aquela antiga e ultrapassada estratégia de enfiar o produto ou o serviço ‘goela abaixo’ e sem critérios racionais está muito restrita àquelas empresas que ainda apostam em um modelo no qual a qualidade não é a prioridade. Do meu ponto de vista essas empresas estão fadadas à morte. E esse processo começa com pequenos ruídos e a médio e longo prazo a falência é inevitável. Por incrível que pareça, às vésperas de 2024, as empresas precisam aprender a investir em processos que garantam a qualidade daquilo que foi vendido. Em resumo: não pode ser desonesto. Segundo ponto: as empresas precisam também prezar pela discrição de seus colaboradores, desde os colaboradores da linha de frente até aqueles de alto escalão. Precisa se preocupar com o que eles postam nas redes sociais e como se comportam. Estou falando de investimento em cultura organizacional. Quanto mais atrito ou maior o ambiente com insegurança ou até mesmo insalubre maior a possibilidade de refletir no seu mercado e naturalmente afetar os negócios. Os gestores escolares devem se preocupar com a reputação de seus colaboradores para que isso não reflita negativamente no mercado.
Como garantir eficiência operacional em 2024?
A operação de uma escola é pesada, morosa, e não resta alternativa, principalmente para as grandes redes, a não ser investir em eficiência operacional. Há um movimento iniciado agora em 2023 que não tem como voltar. Ele obriga as grandes redes a investirem mais em eficiência operacional. Aquelas práticas de 30 e 40 anos atrás, deixam as escolas para trás. Cases que começaram a ser usadas em 2023 têm tudo para efetivar a operacionalização em 2024. Eu explico o porquê. Como uma rede de escolas consegue se firmar no mercado? Isso está ligada ao número de unidades que ela tem espalhadas fisicamente no seu território de atuação. Então a fachada, visualidade, quantidade de escolas é o que com certeza aumenta o seu valor de mercado e a lucratividade. Para conseguir ter ambos você precisa de um processo escalável. Se você tem um investimento em que o equilíbrio das suas contas não ocorre antes de cinco anos, dificilmente vai conseguir melhorar o seu valor de mercado. O segredo é investir em escalabilidade. Um exemplo: pense em um curso livre - neste caso, o aluno precisa passar pela ligação de telemarketing da área comercial, ir presencialmente acompanhada de um responsável até a instituição escolar para assinar fisicamente um contrato. É um processo que tem várias pessoas envolvidas, e se é um processo com várias pessoas envolvidas é consequentemente muito custoso para as escolas. Esse é um exemplo para mostrar que as escolas precisam investir em um modelo mais self-service de matrícula, ou seja, deixar que o interessado que entrou no site da escola faça a matrícula, faça o pagamento e tenha acesso à primeira aula do curso antes de o acesso presencial. Quando você tem um modelo que consegue escalar o seu comercial e a entrega, conseguindo entregar qualidade, você, automaticamente, consegue aumentar o número de escolas e unidades. O resultado é que vai conseguir, automaticamente, melhorar o seu valor de mercado. Por isso, é importante ficar de olho no movimento das redes, pois o que elas praticam acaba sendo copiado.
E com relação às tendências tecnológicas? Como agregá-las de maneira assertiva?
Outro grande problema que existe nas escolas é com relação à entrega do produto. O modelo mais tradicional é aquele em que a escola espera em torno de 60 dias para formar uma turma. Esta turma tem uma limitação física de espaço e uma vez atingido esse limite para conseguir continuar oferecendo aquele curso a instituição escolar tem que abrir novas turmas e a escola perde tempo esperando. O que o mercado tem se movimentado para conseguir: o mais comum é oferecer o meio online, e no meio online de ensino a gente está falando do modelo Ead completamente self-service e que tem o problema da evasão. Além disso, as escolas estão tentando manter as características do presencial, mas a distância. Ou seja, o aluno deve se conectar com o curso online com dia e hora para isso e o professor deve provar que o aluno realmente aprendeu. Algumas redes começaram a ter resultado e escalabilidade nas vendas de unidades e naturalmente isso começa a dar resultado. É um presencial à distância. Na telemedicina, por exemplo, você tem cirurgias feitas remotamente. Uma cirurgia pode ser realizada em Manaus com um médico que está presencialmente em São Paulo. Essa mesma prática pode ser aplicada para outros segmentos. No ramo das escolas, o que isso significa? Um aluno que está em Manaus, o que ele tem que fazer? Tem que ir presencialmente para a escola que está próxima a residência dele. Quando ele entra na sala de aula está um professor conectado virtualmente. O professor pode estar em qualquer região do Brasil e do mundo, então esse professor que tem uma reputação alta e que essa escola não teria condições para contratá-lo, nesse modelo a instituição consegue. O aluno que está em Manaus está tendo uma aula presencial, mas a aula está sendo transmitida com um professor que está em outra localidade. A sensação é a mesma, pois a aula é ao vivo e o professor e os alunos estão ali interagindo. A grande vantagem é que com esse modelo, o mesmo professor consegue ministrar a sua aula para várias unidades ao mesmo tempo. Então se eu tenho uma rede de 10 escolas eu posso deixar os alunos de maneira presencial nessas escolas e o professor estar em outra localidade transmitindo a aula simultaneamente para todas as unidades. Esse modelo começou como protótipo em 2022, se consolidou em 2023 e começa a entrar em escala em 2024. Em resumo: são práticas para aumentar o fluxo. Vou destacar qual é a grande vantagem. O gestor escolar deve fazer a seguinte pergunta: para eu conseguir o dobro de alunos eu preciso dobrar a minha estrutura de pessoal e de investimento? Se a reposta é sim a sua operacionalização não é escalável. Essas práticas tanto na efetivação da matrícula quanto na entrega do curso são formas diferentes para garantir eficiência operacional e aí todo o resto da cadeia vai funcionar muito mais positivamente.