
Última videolocadora de Ponta Grossa resiste em Uvaranas
Juntar toda a família, passar muito tempo olhando para as enormes prateleiras que se estendem até o fim do corredor e muitas vezes acabar pegando o mesmo filme. Essa era a rotina de muitas pessoas há alguns anos dentro das locadoras de vídeo, uma tradição apagada do cotidiano da sociedade.
Para os clientes da Aneisa, a última locadora de filmes da cidade de Ponta Grossa, isso não acabou. Localizada na Avenida General Carlos Cavalcanti, em Uvaranas, ela mantém viva a memória e experiência de locar um filme para assistir com a família ou amigos.
Como tudo começou
Para entender como tudo começou, temos que voltar há mais de 20 anos. Após Adjair Maciel, 51, realizar uma pesquisa de mercado em Ponta Grossa, ele viu que locadoras de filme estavam em alta, já que quem estava no auge eram as fitas VHS.
Ele contratou uma pessoa para ir de porta em porta para descobrir quem tinha videocassete em casa. Os locais escolhidos para a pesquisa foram três bairros grandes que ainda não tinham locadoras próximas, Rio Verde, onde morava, Núcleo Pitangui e Jardim Conceição. “Foi a primeira coisa que fiz. Eu queria saber quem tinha o aparelho em casa e onde costumavam locar as fitas.”, conta Adjair.
Após o resultado do estudo, Adjair decidiu colocar em prática a ideia de criar em uma locadora no bairro de Uvaranas, já que não tinham concorrentes próximos e ele conseguia atender os moradores dos três bairros.
O primeiro espaço físico da DVD Center, atual Aneisa, foi a própria garagem de Adjair. Como ele também trabalhava em uma loja de móveis, deixou uma pessoa cuidando do negócio e manteve seu emprego. Após dois anos de atividade, ele decidiu pedir demissão e se dedicar integralmente à locadora.
Com o passar do tempo, as fitas VHS foram perdendo espaço para os DVDs. Foi aí que o proprietário da DVD Center abriu uma locadora somente de DVDs, no centro da cidade. “No começo foi bem difícil. O aparelho de DVD era muito caro e quem tinha a oportunidade de ter um em casa era somente o pessoal de classe média alta. Então pouca gente tinha”, relata.
Com o tempo, os aparelhos foram ficando mais acessíveis e as locações foram aumentando. Com o negócio a todo favor, ele abriu mais uma unidade, dessa vez em Uvaranas.

Novo nome
A história de Ana Cristina Ferreira, 52, com a locadora começou quando ela tinha 37 anos. Ela começou a trabalhar em meio período na DVD Center, pois também era contratada em outro emprego.
Há oito anos, Adjair quis voltar para o ramo de móveis e decidiu vender a DVD Center para Ana. “Ele sempre falava para nós que se um dia fosse vender a locadora, queria que fôssemos nós a continuar seu legado, pois sabia que amávamos o trabalho e iríamos cuidar dela com muito carinho”, relata a proprietária.
Quando a proposta de compra foi feita, ela viu uma chance de ter sua própria empresa. “Vi a oportunidade de termos algo nosso, nossa empresa” diz. Com um empreendimento em mãos e muita responsabilidade para manter vivo um legado, Ana decidiu mudar o nome da locadora.
Para evitar brigas, ela decidiu juntar o nome das duas filhas e formar a marca do seu novo negócio. “Peguei o nome da mais velha que é Layn Anne e da mais nova que é Isabela. Então ficou Aneisa”, explica.
Durante seus anos de atividade…
A ideia de escolher um filme atualmente é algo tão simples, mas ao mesmo tempo tão complicada. Quem nunca abriu seu streaming e ficou horas e horas procurando o que assistir? Ana conta que na Aneisa não é diferente. “Eu mesma, quando era cliente, ficava horas e horas procurando qual filme iria assistir. Com os clientes daqui é a mesma coisa. Nós conversamos sobre o filme, ele lê a sinopse e nós damos dicas, falamos sobre curiosidades e às vezes o próprio cliente tem um fato interessante sobre o filme para nos contar”, comenta.

Alta demanda
Na época de ouro das locadoras, era comum faltar no estoque alguns títulos, mesmo ela tendo uma quantidade grande do mesmo disco. “Isso acontecia pois o pessoal fazia a locação e não devolvia no dia. Era uma briga! Sempre tinha lista de espera para um filme.”, lembra a empreendedora.
“Quando alguém passava pelas portas da videolocadora, via todos aqueles filmes nas prateleiras, era e ainda é, uma emoção, um verdadeiro mundo de sonhos”, destaca Ana. Essa sensação ainda se mantém viva. Pais e mães que cresceram frequentando o local, hoje levam seus filhos para ter a mesma experiência de locar um filme e fazer uma viajem no mundo dos filmes.
Burocracia
Algumas pessoas tem dúvidas de como é o processo até o filme chegar nas prateleiras da locadora. Para adquirir os DVDs, é necessário entrar em contato com empresas que representam os estúdios e realizar a compra. Não é muito complicado, é o mesmo processo de negociação que já estamos acostumados. Essa compra não é destinada apenas para quem revende, amantes de filmes em mídia física também podem adquirir. Atualmente existem poucas empresas que fazem esse serviço, já que a mídia física não é tão usada.
A parte mais demorada é a chegada desse produto até as prateleiras da Aneisa, que leva em média dois a três meses. Por conta da pandemia, esse prazo ficou ainda maior, filmes que estavam previstos para chegar no começo de 2021, estão chegando apenas em novembro do mesmo ano.

Pirataria
A pirataria foi um fator chave para Adjair largar o ramo das locadoras. Na sua visão, as locadoras atendiam o público de classe média e baixa. “O cliente pagava R$ 6 em um filme lançamento, se pegasse dois, sairia R$12. Quando ele passava no calçadão, tinha cinco filmes por R$10. Às vezes tinham filmes lançamento que nem saiam na locadora e já eram pirateados. Isso acabou com a locação”, conta.
Para a Aneisa ter um título em suas prateleiras custa em torno de R$ 50 a R$ 100, a unidade. Esses valores podem variar, de acordo com filme e seu formato, por exemplo mídias em Blu-ray são mais caras. “O que prejudica, já que a pirataria faz o mesmo por um valor muito inferior, obviamente sem a qualidade de um original. É muito desigual e desleal”, reforça Ana.
A proprietária também acredita que a pirataria foi e é uma grande vilã das locadoras, sendo um dos motivos para que as mesmas perderem seu espaço e visibilidade.
Streaming
A chegada do streaming também foi outra grande mudança no mercado de filmes. Atualmente existem inúmeras opções de serviços por assinatura com preços a partir de R$ 9,90. Ana conta que a grande maioria de seus clientes é assinante de pelo menos um, mas isso não os impede de frequentar a Aneisa. “Tem cliente que tá pagando dois serviços, mas quase não assiste e quando assiste é um filme por mês ou nem isso”, relata.
Para Jorge Munhoz Junior, 37, que passou pelas três fases dos formatos de filmes, fita VHS, DVD e agora streaming, essa transição é ainda mais fácil para assistir um filme. “Antes você tinha que comprar fita ou alugar na locadora, ou até mesmo emprestar de alguém”, conta. Mesmo tendo coleção de fitas VHS em casa, ele não costuma assistir e prefere ver algo em algum streaming.
Revertendo a situação
Para tentar vencer a concorrência digital, Ana lança promoções em determinados dias da semana e ainda dá um maior prazo de devolução para que o cliente passe mais dias com o filme. “Procuramos mostrar que na videolocadora, você vem quando quiser e tem todos os filmes em um só lugar. Não precisa ficar indo de um streaming para outro, e você paga um valor justo para assistir quando e como quiser”, alerta.
Com a chegada da pandemia, ela viu a necessidade de se reinventar e reformular seu negócio. Inicialmente começou vendendo doces, pipocas e guloseimas para acompanhar a sessão de filmes. Hoje, Ana vende um pouco de tudo na locadora. Em 2021, ela apostou nos presentes, como canecas e garrafas. “O pessoal diz que eu vendo até pão se for para vender! E tenho mesmo. Sempre busco ver o que o cliente precisa, para melhor atendê-lo. Sem deixar de lado a locadora”
Questionada sobre a possibilidade de fechar a locadora, Ana tem opinião formada. “A videolocadora é minha menina dos olhos. Não pretendo fechar nunca!”, finaliza.

