Sônia Schamne: o amor pela vida na luta contra o câncer de mama

 Sônia Schamne: o amor pela vida na luta contra o câncer de mama

Aos 49 anos, a bióloga Sônia Schamne venceu o câncer de mama duas vezes e hoje é voluntária da Rede Feminina de Combate ao Câncer de Ponta Grossa. Nessa entrevista exclusiva, ela conta como descobriu o tumor, a luta contra a doença e a emoção da cura

Por Cícero Goytacaz

Sônia Schamne descobriu que estava com câncer pela primeira vez em 1995, aos 24 anos. Ela percebeu o problema na mama direita enquanto amamentava a filha mais nova, de apenas cinco meses de idade e, no início, chegou a pensar que poderia ser o leite materno que havia empedrado. “Na época nem falavam em câncer, os mais antigos diziam ‘aquela doença’. As pessoas tinham medo como se só de falar o nome já ficasse doente”, relembra.

Depois de alguns exames, veio a notícia de que o tumor era maligno. Ela confessa o quanto foi muito difícil lidar com o diagnóstico. “Eu me preocupei porque tinha duas crianças pequenas, uma de cinco meses e outra de dois anos e meio. Já havia tido outros casos de câncer de mama na família da minha mãe e só uma prima dela tinha vencido o câncer e estava bem, as outras todas já tinham ido embora. Eu tive medo de não ver as minhas filhas crescerem, de não estar aqui quando elas fizessem 15 anos”, conta sem esconder o desespero que sentiu. 

Minhas filhas precisam de uma mãe

Com a orientação e apoio da prima de sua mãe, Sônia realizou a cirurgia em Curitiba e seguiu o tratamento em Ponta Grossa. Ela afirma ter lidado bem com a retirada da mama direita e com a queda dos cabelos, mas admite que foi difícil enfrentar os efeitos da quimioterapia. “As quimioterapias judiam bastante, não vou dizer que não, porque judiam. A minha motivação era olhar aquelas duas figurinhas que eu tinha lá em casa e pensar: ‘elas precisam de uma mãe, elas precisam que eu esteja aqui’”, frisa. A religiosidade também ajudou Sônia a lidar com os momentos mais difíceis do tratamento sem perder a esperança. “Eu sempre acreditei muito em Deus, que Ele iria prover e eu seria uma prova que o câncer não mata sempre, que eu iria vencer”, afirma.

A cirurgia de retirada da mama e a quimioterapia foram suficientes para que Sônia vencesse a doença. “A primeira coisa que se passa na cabeça de quem recebe o diagnóstico do câncer é: ‘quanto tempo eu tenho de vida?’”, lembra. “Aí eu dizia para mim mesma que eu tinha que lutar para criar as minhas filhas, que elas precisavam da mãe e que eu iria vencer por elas”, destaca. 

Você quer viver?

Sônia acredita que o apoio dos médicos, profissionais da saúde, familiares e amigos foi determinante para que ela superasse a doença. “Se a pessoa tem uma doença assim, a primeira coisa que ela tem que fazer é lutar. A primeira coisa que o médico de Curitiba falou quando cheguei com todos os exames foi: ‘eu não quero ver exame nenhum, minha filha, você quer viver?’. Eu respondi: ‘claro que eu quero, eu tenho duas filhas’, e ele disse: ‘então nós já temos 50% do tratamento, os outros 50% nós vamos conseguir com o que a medicina e a ciência têm para nos dar’. Aquilo para mim foi fundamental”, relata. “O paciente oncológico não é apenas mais um paciente, ele precisa de uma atenção especial. O médico não sabe ele volta para a segunda consulta e muitos, infelizmente, não voltam. É primordial a gente ter essa positividade”, opina.

Enfrentando a doença novamente

Sônia voltou a enfrentar o câncer de mama 16 anos depois. Segundo a bióloga, foi um tumor menor, porém mais agressivo. “Não foi nem por descuido. Eu tinha por hábito, todo ano, na mesma época, fazer a mamografia. Aquilo era rigoroso, eu não deixava passar um mês”, lembra. Justamente quando estava saindo da clínica onde havia feito a mamografia, uma das médicas que atendia Sônia sugeriu que ela fizesse também uma ressonância. “Então, eu fiz o pedido, o plano de saúde liberou e eu fui fazer. Para a minha surpresa, estava lá o tumor, desta vez na mama esquerda”, relata.

Apesar do choque, Sônia diz ter encarado a doença pela segunda vez de forma mais tranquila. “O médico que me atendeu a primeira vez estava fora do Brasil, estava na China. Aí eu decidi não esperar ele voltar, queria fazer a cirurgia ‘para ontem’”, brinca. Ela comenta que, após várias microcirurgias de reconstrução, desenvolveu alergia ao látex e novamente teve que recorrer a profissionais de Curitiba”, explica.

Ela foi tratada pelo cirurgião oncológico Cícero Urban, referência em mastologia e reconstrução mamária. “Como eu já havia passado por isso, eu não queria apenas retirar o nódulo, mas a mama esquerda inteira. Quando o doutor Cícero me perguntou se eu aceitava isso, na hora concordei com ele, pensei: ‘é isso, fechou’”, lembra. A bióloga conta que a cirurgia ocorreu bem e que as sessões de quimioterapias dessa vez foram mais preventivas do que curativas. “Na segunda vez, o susto é grande, mas você já sabe o que vai enfrentar. Os efeitos da quimio na primeira vez foram mais devastadores, eu tinha uma reação muito grande, já na segunda vez, quase não tive reação nenhuma”, enfatiza. “Teve uma das vezes que fiz a quimioterapia no dia 24 de dezembro. Saí da quimioterapia, fui na feirinha e comprei o resto das coisas que eu ia precisar para fazer a ceia de Natal normalmente”, diverte-se. 

Saiu aquela nuvem preta de cima da nossa cabeça 

Sonia conta como foi receber a notícia que está curada. “Olha, é uma felicidade tão grande, a única palavra que eu posso te dizer é paz. A tranquilidade de saber que passou, sumiu, saiu aquela nuvem preta de cima da nossa cabeça”, desabafa. “Todas as pessoas que passam por isso e conseguem vencer tem que lembrar todos os dias: ‘eu venci’!”, completa.

Entretanto, ela garante que não se sente especial por ter vencido a doença duas vezes. “Eu vou ser sincera, as pessoas me falam: ‘Sônia, você é uma pessoa muito vitoriosa, olha tudo o que você passou’, mas eu sou uma pessoa normal, como outra qualquer”, diz.  

Hoje ela trabalha como voluntária na Santa Casa e na Ispon conversando com as pessoas que estão em tratamento e dando apoio para quem está enfrentando a doença. “Às vezes passo a tarde inteira lá e ninguém sabe que eu já tive câncer. Eu fico lá, conversando, dando apoio e não deixando as pessoas desistir, explica Sônia. “Quando eu me sinto à vontade, eu conto, mas eu penso que não é uma bandeira. Eu acho que sim, eu sou vitoriosa, mas assim como eu, existem muitas e muitas mulheres que também venceram o câncer uma, duas, várias e várias vezes”, lembra.  

Uma lição de fé e amor pela vida

Sônia também compartilha a lição de fé que leva para a vida após sua cura. “De toda essa história, eu levo que nesta vida a gente não é nada, a gente não pode ter orgulho de nada. A gente tem que ter muita humildade para saber que um dia, tudo o que Deus te deu, como aprendizado, tudo o que Ele deu aqui, um dia Ele vai cobrar de ti. Não como um carrasco, mas no sentido de que ele me deu a oportunidade: ‘olha, você teve a doença, venceu e você precisa mostrar a essas pessoas que é possível elas vencerem’, então eu só estou tentando fazer a minha parte”, relata.

Quem ama, se cuida e se toca 

Sônia Schamne é voluntária da Rede Feminina de Combate ao Câncer de Ponta Grossa há 15 anos e admite que demorou para aceitar o convite para participar. “Eu já tinha tido a doença, vencido uma vez e meu médico sempre me incentivada a participar, mas eu ia deixando para depois. Eu tive que levar mais um tombo da vida, quando eu perdi minha filha mais velha para o câncer. Ali eu decidi que precisava colocar um objetivo para minha vida e trabalhar em prol de quem luta contra essa doença”, frisa.

 Ela não esconde o amor que sente pelo trabalho desenvolvido pela Rede. “Aquilo para mim é muito importante. Mesmo na segunda vez que eu tive câncer, eu só não fui durante o período que fazia a quimio, porque ficava debilitada, mas mesmo depois, carequinha, com o cabelinho começando a nascer, eu punha meu lencinho e ia”, recorda.

Hoje Sônia também dá palestras onde motiva outras mulheres a fazer o autoexame das mamas. “Toda mulher tem que tomar por hábito fazer o autoexame pelo menos uma vez por mês. Se achar alguma coisa, não precisa se apavorar, procure ajuda. Quanto antes achar o problema, antes vai eliminá-lo”, enfatiza lembrando que as chances de cura do câncer de mama, quando descoberto logo no início, são de até 97%. “Quem ama, se cuida e se toca”, conclui.

Outubro Rosa

No mês de outubro se comemora a campanha “Outubro Rosa”, em conscientização à prevenção do câncer de mama. De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA), esse é o segundo tipo mais comum da doença, depois do câncer de pele.

Imagens: Arquivo pessoal

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